Menopausa muda o cérebro? Entenda como a queda do estrogênio afeta o humor

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Depressão aumenta entre as mulheres; entenda a função do estrogênio na saúde mental feminina — Foto: Adobe Stock

Hormônio regula neurotransmissores ligados às emoções e passa por oscilações nessa fase da vida.

Mudanças hormonais ao longo da vida reprodutiva podem afetar diretamente a saúde mental das mulheres — e o estrogênio tem papel central nesse processo.

Na transição para a menopausa, que costuma ocorrer a partir dos 45 anos, a produção desse hormônio passa por oscilações importantes. Essa variação interfere em áreas do cérebro ligadas ao humor, ao sono e à cognição, e pode favorecer o surgimento ou a piora de sintomas como irritabilidade, ansiedade e tristeza persistente.

Esse cenário se soma a um momento da vida frequentemente marcado por sobrecarga: trabalho, cuidado com filhos e, muitas vezes, com pais idosos — um conjunto de fatores que pode aumentar a vulnerabilidade emocional nessa fase.

Dados recentes ajudam a dimensionar esse quadro. A frequência de diagnóstico de depressão entre mulheres aumentou no Brasil entre 2020 e 2024passando de 14,8% para 19,7%, segundo o relatório de Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico (Vigitel), do Ministério da Saúde.

Embora o levantamento considere mulheres adultas de diferentes idades, especialistas apontam que parte desse aumento pode estar relacionada a períodos de maior instabilidade hormonal, como o climatério.

Queda do estrogênio e impacto no cérebro

A psiquiatra Heloisa Batistussi, do Hospital do Servidor Público Estadual (HSPE), explica que muitas mulheres passam boa parte da vida sem sintomas relevantes, mas começam a perceber alterações emocionais com a chegada do climatério, geralmente a partir dos 40 anos.

Nesse período, marcado pela redução dos níveis hormonais, passam a ser afetados diretamente circuitos cerebrais ligados ao humor.

Esse efeito se intensifica na perimenopausa, fase que antecede a menopausa — em geral entre os 45 e os 55 anos — e é marcada por oscilações hormonais mais acentuadas, capazes de desencadear sintomas como irritabilidade, ansiedade e tristeza persistente.

Segundo Luciano Pompei, vice-presidente da Comissão Nacional Especializada em Climatério da Federação Brasileira das Associações em Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo), trata-se de uma fase de maior vulnerabilidade, em que pode haver o surgimento ou a piora de sintomas depressivos, embora isso não explique todos os casos.

— Foto: Freepik

O papel do estrogênio na saúde mental feminina

O estrogênio, um dos principais hormônios sexuais femininos, desempenha papel central no funcionamento do cérebro.

A endocrinologista Karen de Marca, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), explica que esse hormônio influencia diretamente a produção de neurotransmissores como serotonina e dopamina — substâncias essenciais para a regulação do humor.

Quando os níveis de estrogênio caem, essas substâncias também sofrem alterações, o que pode favorecer quadros de instabilidade emocional.

A redução hormonal também está associada a sintomas como dificuldade de concentração, alterações do sono, irritabilidade e os chamados fogachos.

Segundo a especialista, regiões do cérebro ligadas à memória e à cognição, como o hipocampo, também são sensíveis ao estrogênio, o que ajuda a explicar queixas frequentes nessa fase, como lapsos de memória e dificuldade de foco.

Nem todo sintoma é depressão

Apesar da relação entre estrogênio e saúde mental, especialistas fazem uma ressalva importante: a presença de sintomas não significa, necessariamente, um quadro de depressão.

A diferenciação depende de avaliação clínica e leva em conta fatores como duração, intensidade e impacto na rotina. Em geral, alterações hormonais tendem a causar sintomas mais leves e flutuantes, enquanto a depressão costuma ser mais persistente e incapacitante.

Pompei observa que, em alguns casos, há sobreposição. Mulheres que já têm histórico de depressão podem apresentar piora dos sintomas durante a perimenopausa, o que pode exigir ajustes no tratamento.

— Foto: Adobe Stock

Depressão e menopausa ao mesmo tempo

Quando há diagnóstico de depressão, o tratamento segue as abordagens tradicionais, com uso de antidepressivos e psicoterapia.

Nos casos em que esses quadros ocorrem junto com sintomas típicos da menopausa, a terapia hormonal pode ser indicada como complemento, ajudando a aliviar manifestações associadas à queda do estrogênio.

Segundo Pompei, a reposição hormonal não substitui o tratamento da depressão, mas pode atuar como coadjuvante, contribuindo para o controle dos sintomas e para o bem-estar da paciente.

Fatores que aumentam a vulnerabilidade na menopausa

A intensidade das alterações emocionais associadas à queda do estrogênio varia entre as mulheres. Quadros mais marcados costumam ocorrer em quem apresenta sintomas menopausais mais intensos, como ondas de calor frequentes e piora do sono.

Algumas condições também estão associadas a maior risco de impacto na saúde mental nessa fase, como:

  • histórico prévio de depressão;
  • menopausa cirúrgica (retirada dos ovários), que provoca uma queda hormonal abrupta.

Além dos fatores biológicos, o contexto social também pesa.

A sobrecarga de tarefas — com trabalho, filhos e, muitas vezes, cuidado de pais idosos — tende a se intensificar nesse período da vida, o que pode agravar o estresse e favorecer o surgimento ou a piora de sintomas emocionais.

O que pode ajudar

Mudanças no estilo de vida podem funcionar como fator de proteção para a saúde mental durante a perimenopausa.

Entre as principais recomendações estão:

  • prática regular de atividade física
  • estratégias de manejo do estresse
  • fortalecimento da rede de apoio social

Essas medidas não substituem o tratamento clínico quando necessário, mas ajudam a reduzir a intensidade dos sintomas e a melhorar a qualidade de vida.

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