Brasileira vence prêmio da National Geographic por criar “pontes” que salvam animais na Amazônia

Brasileira vence prêmio da National Geographic por criar “pontes” que salvam animais na Amazônia

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A pesquisadora brasileira Fernanda Abra foi uma das vencedoras do prêmio Wayfinder Award, concedido pela National Geographic Society a profissionais que desenvolvem soluções inovadoras para desafios globais. A cerimônia de entrega ocorreu em Washington, D.C., e garantiu à cientista o título de Exploradora da National Geographic, além de um aporte de US$ 50 mil, acesso a novas oportunidades de financiamento e integração à rede internacional de exploradores da instituição.

O reconhecimento destaca o trabalho desenvolvido por Fernanda na busca por alternativas que conciliem infraestrutura e conservação da biodiversidade, especialmente em regiões de grande importância ambiental, como a Amazônia.

Pontes de dossel conectam áreas de floresta

Cofundadora do Instituto Reconecta e da ViaFAUNA, Fernanda também é pesquisadora associada do Smithsonian National Zoo and Conservation Biology Institute, nos Estados Unidos, e integrante do IPÊ (Instituto de Pesquisas Ecológicas).

Nos últimos anos, ela tem liderado iniciativas voltadas à redução dos impactos causados por rodovias sobre a fauna silvestre. Entre as principais soluções adotadas estão as chamadas pontes de dossel, estruturas suspensas que permitem a travessia segura de animais arborícolas entre fragmentos de floresta separados por estradas.

A iniciativa faz parte do Projeto Reconecta, que desde 2021 vem promovendo a instalação dessas passagens em áreas estratégicas da Amazônia brasileira.

“Dedico este prêmio ao município de Alta Floresta e a todos os parceiros que acreditaram que poderíamos fazer diferente. Cada ponte de dossel que instalamos representa algo muito simples e profundamente importante: a oportunidade de um animal continuar seu caminho. Encontrar alimento, reencontrar seu grupo, reproduzir-se, sobreviver”, afirma Fernanda Abra. “Em um mundo onde as estradas ampliaram a liberdade de movimento das pessoas, nosso desafio é garantir que a vida silvestre também possa continuar exercendo esse direito fundamental de ir e vir. É isso que essas pontes representam para mim: esperança, coexistência e futuro”, completa.

Mais de 20 mil travessias registradas

Os resultados já demonstram a eficácia da proposta. Desde o início do projeto, dezenas de pontes de dossel foram instaladas e mais de 20 mil travessias seguras de animais silvestres foram registradas.

O trabalho começou ao longo da BR-174, rodovia que atravessa a Terra Indígena Waimiri-Atroari, entre os estados do Amazonas e Roraima. Na ocasião, foram instaladas 32 pontes artificiais, formando a maior iniciativa desse tipo já realizada em uma rodovia tropical.

A ação contou com a colaboração do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT), da Universidade Federal do Amazonas (UFAM) e da comunidade indígena Waimiri-Atroari, que participou da definição dos locais de instalação e do monitoramento da fauna.

A parceria transformou um cenário frequentemente marcado por conflitos entre desenvolvimento e preservação ambiental em um exemplo de cooperação entre comunidades tradicionais, órgãos públicos e pesquisadores.

Tecnologia virou referência nacional

Ao longo dos anos, as estruturas foram aperfeiçoadas para atender diferentes espécies que vivem nas copas das árvores. Estudos conduzidos em parceria com o Smithsonian permitiram o desenvolvimento de um modelo multicamadas capaz de acomodar formas variadas de locomoção utilizadas por primatas, marsupiais, roedores e outros mamíferos arborícolas.

O sucesso da tecnologia foi além dos projetos-piloto. Em 2026, o modelo desenvolvido pelo Projeto Reconecta passou a ser recomendado pelo DNIT como padrão para implantação em rodovias federais brasileiras.

As diretrizes foram incluídas na publicação Segurança Viária e Conservação da Fauna: Medidas de Mitigação para Reduzir Impactos sobre Animais Silvestres em Rodovias Federais Brasileiras, consolidando a iniciativa como uma referência nacional em infraestrutura sustentável.

Espécie ameaçada se tornou símbolo do projeto

Um dos casos de maior destaque ocorreu em Alta Floresta, no norte de Mato Grosso. Em apenas 15 meses de monitoramento, sete pontes de dossel instaladas na cidade registraram quase 15 mil travessias de animais.

Entre as espécies beneficiadas estão o macaco-aranha-de-cara-preta, o bugio-ruivo, o mico-de-Schneider, o macaco-da-noite, o macaco-prego e o zogue-zogue-de-Alta-Floresta (Plecturocebus grovesi).

Descrito pela ciência apenas em 2019, o zogue-zogue é considerado criticamente ameaçado de extinção e existe exclusivamente em uma pequena região do norte de Mato Grosso. Dependente das copas das árvores para se deslocar, alimentar-se e reproduzir-se, o primata enfrenta desafios causados pela fragmentação da floresta e pela expansão urbana.

Para especialistas, as pontes de dossel representam uma ferramenta importante para garantir a conectividade entre áreas florestais e aumentar as chances de sobrevivência da espécie.

“Ver o zogue-zogue-de-Alta-Floresta utilizando as pontes de dossel é algo emocionante. Cada travessia registrada representa uma oportunidade de sobrevivência para essa espécie criticamente ameaçada”, afirmou Vitória Da Riva, da Fundação Ecológica Cristalino.

O reconhecimento da National Geographic reforça a relevância de soluções que buscam equilibrar desenvolvimento e conservação, mostrando que obras de infraestrutura podem coexistir com estratégias eficazes de proteção à biodiversidade.

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