Quem caminha pelas ruas de São Paulo certamente já viu o famoso piso paulista. Presente em calçadas, escadarias e diversos espaços da cidade, o desenho geométrico se tornou um dos principais símbolos da capital. O que poucos sabem é que sua criadora foi uma mulher: Mirthes Bernardes, nome artístico de Mirtes dos Santos Pinto.
A história começou nos anos 1960, quando Mirthes trabalhava como desenhista na Secretaria de Obras da Prefeitura de São Paulo. Na época, o então prefeito Faria Lima lançou um concurso para definir um modelo padrão para as calçadas da cidade. Sem grandes expectativas, a desenhista criou um projeto inspirado tanto no mapa de São Paulo quanto nas famosas ondas do calçadão de Copacabana, mas com características próprias.
Inicialmente, o desenho permaneceu esquecido em uma gaveta. Tudo mudou quando seu chefe encontrou o esboço e a convenceu a inscrevê-lo na competição. Entre quatro propostas finalistas apresentadas ao público na Rua da Consolação, a criação de Mirthes foi a escolhida e passou a fazer parte da paisagem paulistana.
Com o passar dos anos, o piso deixou de ser apenas um revestimento urbano e se transformou em um elemento da identidade visual de São Paulo. O padrão apareceu em campanhas publicitárias, produtos e materiais institucionais, consolidando-se como um dos ícones da cidade.
Apesar da enorme popularidade da obra, Mirthes jamais recebeu remuneração pelos direitos de sua criação. Segundo relatos da própria artista, ela passou décadas tentando obter reconhecimento financeiro e direitos autorais sobre o desenho. Sem condições de sustentar longas batalhas judiciais na época, enfrentou dificuldades para prosseguir com os processos e, ao longo dos anos, perdeu documentos importantes relacionados à autoria da obra.
Mesmo diante dos obstáculos, ela nunca abandonou completamente a luta pelo reconhecimento. Em depoimentos e registros deixados por escrito, Mirthes relatou as dificuldades enfrentadas e o desaparecimento de documentos que poderiam fortalecer sua reivindicação.
Embora não tenha conquistado a compensação financeira que buscava, sua contribuição foi lembrada em diversas homenagens. Em 2007, o piso paulista inspirou um desfile da escola de samba Mocidade Alegre. Anos depois, o Sesc 24 de Maio também celebrou a artista em uma instalação especial.
Uma das homenagens mais significativas ocorreu em 2016, quando o coletivo Mosaico Paulista e a Associação dos Moradores de Joaquim Antunes transformaram uma escadaria no bairro de Pinheiros com azulejos baseados no desenho criado por ela. O local passou a se chamar Escadaria Mirthes Bernardes.
Mirthes faleceu em 2020, aos 87 anos, mas seu legado permanece vivo todos os dias sob os pés de milhões de paulistanos. Criadora de um dos maiores símbolos urbanos da cidade, ela deixou uma marca permanente na história e na identidade visual de São Paulo.
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